-Eu devoro suas palavras com os olhos, com a mente, saboreando todas as conexões, pontos, afirmações e indagações. Por quê? Porque você escreve tão pouco. Ou sou eu que escrevo muito? Ou sou eu que escrevo muito em pequenas porções e você, do contrário, vem tão pouco falando sempre muito? Acho que é isso mesmo... acho que você fica se passando por malvado, mas você não é. Deixa os outros famintos e depois resolve saciá-los com fartos banquetes. Mas acho que não é só isso. Se fosse assim seria muito fácil. Acho que você deposita tanta coisa em torno de coisinhas, que fica bonito de se ler. E, ainda, para ajudar, você vem de surpresa, que nem aquelas chuvas repentinas de verão. É, acho que eu não só devoro, acredito que eu também bebo dessa água de chuva de verão no meio do deserto, em taças de vinho. Água em taças de vinho como que num banquete. Eu não consigo explicar, com você eu sempre ando encontrando coisas indescrítíveis. Fica tudo em pedacinhos. Os seus pedacinhos que eu junto. Os meus pedacinhos que eu consigo falar. E no fundo é tudo uma imensidão de deserto. Uma imensidão de silêncio com vento zunindo por cima das dunas de areia. Aí não me resta muita coisa para pensar sobre a imensidão. Me resta juntar tudo e concentrar o entendimento. Me resta tanto entendimento, que eu continuo seguindo esperando. Esperando tanta coisa que se resume em uma só. Não são só as palavras... Pra ser sincera, acho que não é nada disso. Acho que é tudo encantamento com toque de realidade. É você aí e eu aqui e todas as intenções direcionadas. Tudo sempre depende do encantamento. Até mesmo a própria concepção da realidade.